"The Women's Game"
Exposição “The Women’s Game”, em Paris, no Jardim Nelson Mandela – Créditos: Divulgação Fifa ©

Texto: Laura Magro

Revisão e Entrevistas: Ildeu Iussef

Uma coisa é certa: jogar futebol, também é coisa de mulher. Já é fato que as mulheres podem praticar o esporte que elas bem entendem, mas nem sempre foi assim. O início do futebol jogado por mulheres não têm muito consenso, mas a FIFA (Federação Internacional de Futebol) data o primeiro jogo oficial de futebol feminino ocorrido em 23 de março de 1885 em Crouch End na capital da Inglaterra, Londres. Representando duas partes da cidade, os times foram divididos em Norte e Sul.

Como berço da Revolução Industrial, a Inglaterra também o foi da primeira federação nacional de futebol do mundo: a Football Assossiation – FA, em 1863, hoje órgão máximo do esporte no país. E foi, também, em território inglês que surgiu a iniciativa do primeiro time feminino de futebol.

O futebol antes era considerado esporte de homens e, no Brasil, nunca foi diferente. Apenas no ano de 1921 aconteceu a primeira partida de futebol feminino do país, entre moradoras dos bairros Cantareira e Tremembé, da zona Norte de São Paulo, noticiada no Jornal A Gazeta. Somente, em 1941, em São João da Boa Vista (SP), pela primeira vez uma mulher apitava um jogo de futebol masculino – na oportunidade um amistoso entre o Serrano de Petrópolis e o América do Rio, já que o árbitro havia passado mal. 

Esse sexismo no futebol brasileiro também esteve presente nas instituições governamentais, dirigidas por homens. Durante o governo de Getúlio Vargas, em 14 de abril de 1941, com o  Decreto-Lei 3199,  instituiu-se: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”.

jornal 1941
Trecho do Jornal O Imparcial de 1941 Créditos: Arquivo Biblioteca Nacional/Museu do Futebol

Esse decreto vigorou até 1979, foram 38 anos para a revogação da lei e para que clubes pelo país passassem a criar seus times femininos, como o SAAD de São Paulo e o Radar do Rio.  Avançando um pouco no tempo, a primeira partida da Seleção Brasileira Feminina de Futebol foi em um amistoso contra os Estados Unidos em 1986, perdendo por 2 a 1. Enquanto, a disputa do primeiro torneio FIFA ocorreu em 1988, com 16 jogadoras sendo do Radar, para a disputa do Mundial experimental na China.

Com a demanda cada vez maior do futebol feminino, a FIFA organizou a primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino em 1991, na China, décadas depois da masculina (1930). Foram preciso alguns anos para que a Copa do Mundo de Feminina começasse a ganhar o mesmo significado que a masculina, por parte do público, de patrocinadores, publicidade, transmissões e da própria FIFA.

Nesta Copa, que aconteceu entre os dias 7 de junho e 7 de julho de 2019, vemos um mês que se passou. Um mês repleto de significado. Um mês que, para muitos, mas entoando “muitas”, foi excepcional.

Para Raphaela Ferro, professora de jornalismo na Universidade Federal de Goiás e coordenadora do programa Doutores da Bola na Rádio Universitária, esse Mundial teve uma visibilidade inédita no Brasil. 

“É importante que isso comece a ser visto como um evento de grande relevância que envolve a Seleção Brasileira, que tem jogadoras profissionais que estão entre as melhores do mundo e que essa Seleção tenha esse mesmo apoio e torcida que a masculina carrega”, afirmou Raphaela Ferro em entrevista ao Esporte em Pauta

Essa visibilidade que precisa ser aumentada é possível por meio da transmissão dos jogos da Copa do Mundo Feminina em canais de televisão aberta, pelo menos os jogos da Seleção Brasileira. Para Raphaela, já é um avanço que isso ocorra, pois antes isso não acontecia. Quando a Copa é masculina, todos os jogos são transmitidos, não apenas o da Seleção Brasileira, o que mostra a discrepância na valorização das mulheres na competição.

“Algumas pessoas nem sabiam que a Copa do Mundo Feminina estava acontecendo e a televisão aberta é importante nessa etapa de visibilidade para que as pessoas comecem a ver que o esporte feminino em geral também significa qualidade, talvez passando a cobrar que exista mais espaço de divulgação e transmissão para ele, não apenas o futebol. Ter comentaristas mulheres – e quem sabe no futuro, narradoras – nas transmissões, com qualidade técnica, também acarreta em peso a representatividade. É importante que exista o Galvão Bueno narrando o jogo, por todo o peso de importância que ele representa ao narrar, mas também é necessário ter a voz da mulher nessas transmissões, e não apenas as de modalidades femininas, pois isso é o plural da representatividade”, Raphaela Ferro em entrevista ao Esporte em Pauta

VISIBILIDADE DO FUTEBOL FEMININO

O jogo das oitavas de final do Mundial Feminino entre Brasil e França, no dia 23 de junho, foi o de maior público telespectador da história do futebol feminino: 59 milhões em todo o mundo. Somente no Brasil, foram 35 milhões de telespectadores. Já a final entre Estados Unidos e Holanda, a vitória estadunidense foi assistida por 19,9 milhões de brasileiros pela Rede Globo e SporTV – não contabilizando os que assistiram pela concorrente Rede Bandeirantes – maior público televisivo do que o registrado em solo estadunidense: 15,2 milhões através dos canais Fox Sports e Telemundo.

A jornalista Cristiane Mussi, de 33 anos – uma das idealizadoras da hashtag #DeixaElaTrabalhar –  neste ano em conjunto com a colega de profissão Carol Cardoso lançaram durante o Mundial da França, a hashtag #EuConsumoFutebolFeminino na busca da visibilidade do esporte feminino.

De acordo com Cristiane Mussi, a tag foi amplamente utilizada pelos usuários das redes sociais que acompanharam o torneio, principalmente no Twitter, sendo possível ter uma noção de quantos usuários estavam de fato consumindo futebol feminino, não somente assistindo as partidas.

Cristiane concorda que há carência de competições femininas no futebol, tanto no Brasil quanto no mundo. “Tudo fica limitado a essa questão financeira para empoderar o esporte. Sabemos como o futebol masculino tem investimento e chama a atenção”.

Para a jornalista, também é importante que a seja transmitido em TV aberta a Copa do Mundo de Futebol Feminino, para o reconhecimento do esporte feminino entre os brasileiros.

“Vemos que o caminho para existir mais treinamento, mais qualidade técnica e tática no futebol feminino é dar essa visibilidade a ele. As marcas devem entender que patrociná-lo e investir em categorias de base e times de futebol feminino é importante nesse papel. Maior patrocínio garante mais audiência, que garante maior visibilidade e, por consequência, maior investimento na categoria. Com maior investimento, temos cada vez mais qualidade técnica para as atletas. É um ciclo lógico que a categoria feminina também deveria ter acesso e, mais uma vez, não apenas no futebol”, afirmou  Cristiane Mussi em entrevista ao Esporte em Pauta

O FUTEBOL FEMININO NO BRASIL

No Brasil, as categorias de base femininas são pouquíssimo valorizadas. No início de 2019, a CBF anunciou novidades para o futebol feminino com a ampliação do calendário do Campeonato Brasileiro das Séries A-1 e A-2 e com a criação do Campeonato Brasileiro Sub-18, a primeira competição de base feminina do país.

Além disso, a partir de 2019, a CBF passou a exigir dos clubes que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro a manutenção de equipes de futebol feminino, adultas e de base, em atendimento a uma demanda da instituição máxima do futebol no documento FIFA 2.0: The vision for the future, de outubro de 2016, além da Conmebol que em setembro de 2016 havia aprovado um novo regulamento de Licenças de Clubes, válido desde 2018.

Conmebol
Regulamento da Licença de Clubes da Conmebol prevê necessidade de equipe feminina principal e de base para a disputa dos torneios continentais – Créditos: Reprodução/Conmebol

Conversamos com a pequena Natália Pereira, de 10 anos, que é a primeira menina a ingressar em categorias de base times no Brasil. Natália joga no time de base do Avaí (SC), junto com meninos.

Nati jogava futebol com seu irmão desde pequena e, com o apoio dos pais, depois passou a jogar futsal, também com garotos. Hoje, está na equipe sub-11 do time e não deixa de jogar com seu laço no cabelo preso, sua marca registrada.

A “menina do laço” é fã da jogadora Marta, do Orlando Pride e artilheira da Seleção Brasileira Feminina, diz que gosta muito de acompanhar a copa do Mundo Feminina e que é importante para dar reconhecimento e visibilidade às mulheres no esporte. 

Nati "A Menina do Laço"
Nati, “A Menina do Laço” – Créditos: Marco Santiago/ Divulgação Assessoria

A SELEÇÃO BRASILEIRA NO MUNDIAL DA FRANÇA

Na Copa do Mundo Feminina, a Seleção brasileira mesmo tendo a melhor jogadora do mundo: Marta, maior artilheira em Copas do Mundo com 17 gols, não foi favorita para ganhar a disputa. Segundo Raphaela Ferro, a Seleção não tem uma estrutura técnica e tática como outras que garantisse o título, além disso a estrutura para treinamento não é a mesma do time masculino, não tem a mesma qualificação de técnico e equipe técnica, os salários são mais baixos e o investimento não é adequado.

“É fácil imaginar que o Vadão nunca seria o técnico da seleção masculina, mas é o da feminina” – Raphaela Ferro

Os brasileiros sentiram a sensação de frustração quando o Brasil foi eliminado pela França por 2 a 1 na prorrogação das oitavas de final. A estudante Maria Julia Tobias, de 19 anos, não assistiu a todos os jogos da Seleção Brasileira na Copa Feminina por conta dos horários de estudo – já que não há recesso quando os jogos da seleção feminina da Copa do Mundo acontecem, como na masculina – mas torcia pelas brasileiras e as tinha como favoritas. A estudante disse que não vê a Seleção Feminina com as mesmas oportunidades de investimento e visibilidade, pois “o futebol é erroneamente considerado um esporte masculino”. 

Além disso, em entrevista ao Esporte em Pauta, Maria Julia disse que pretende procurar saber mais sobre futebol feminino após essa Copa. “As meninas são extremamente competentes e dedicadas e merecem mais reconhecimento, sem contar que representa uma grande quebra de paradigmas”

De acordo com a publicitária Líbia Macedo, a repercussão do Mundial Feminino é um pouco surpreendente para as pessoas que não estão muito envolvidas com o esporte. O futebol feminino vem crescendo e essa era pra ser a “Copa do Mundo de divisão de águas” para a modalidade, mas Líbia aponta que já é um caminhar de anos, sobretudo ao empoderamento feminino, “não é apenas um boom repentino, é um decorrer de tudo isso”.

Para Líbia Macedo, a capa da revista Vogue Brasil de Julho com a jogadora Marta – que já foi eleita seis vezes a melhor do mundo – é uma representatividade para as mulheres no geral, na questão de igualdade de gênero dentro e fora de campo, então agora não tem mais jeito de a imprensa não olhar para ela, não tem mais como fingir que não está acontecendo, a mulher empoderada” afirmou a publicitária em entrevista ao Esporte em Pauta.

Marta Vogue
Marta Vieira da Silva, fotografada por Zee Nunes (Thinkers Mgt), usa vestido Dolce & Gabbana. Edição de Moda: Pedro Sales. Beleza: Henrique Martins (Capa Mgt). Direção Executiva: Rodrigo Crespo (The Box Productions). Tratamento de imagem: Studio Bruno Rezende – Créditos: Divulgação Vogue Brasil

Durante a Copa do Mundo, Marta trocou as chuteiras brancas pelas pretas sem nenhum patrocínio e com o símbolo “=” em azul e rosa, no jogo contra a Austrália, em apoio à campanha Go Equal, iniciativa que pede pela equidade de gênero no mundo esportivo, sobretudo nos patrocínios.

Há essas tantas barreiras a serem rompidas para o futebol feminino decolar com a mesma importância do futebol masculino. A equidade e visibilidade da modalidade depende do dinheiro investido.

O futebol, sempre visto como esporte de homens, como muitas pessoas, infelizmente, ainda julgam, recebe o montante maior de investimentos e prêmios, mas a FIFA quer investir cada vez mais nesse produto que é o futebol feminino, já que a lotação dos estádios nessa edição de Copa do Mundo Feminina chegou a 74%, com média de mais de 20 mil pessoas por jogo.