Estádio Serra Dourada
Estádio Serra Dourada – Créditos: Ildeu Iussef

Texto: Laura Magro

Entrevistas: Ildeu Iussef

O esporte é a paixão tanto de atletas, quanto de quem assiste. O tempo demandado a ele é quase sagrado para muitos. Isso não é novidade. Também não é novidade que no jornalismo existam os apaixonados pelo esporte, o que leva muitos estudantes de comunicação a, desde o início do curso, saberem que querem trabalhar com isso. Em Goiás, o jornalismo esportivo atrai profissionais e fãs, sendo o futebol a estrela que seduz a maioria das atenções de todos os lados.

Os times clássicos da capital goiana e do estado – Vila Nova Futebol Clube, Goiás Esporte Clube, Atlético Clube Goianiense e Goiânia Esporte Clube – atraem grande público aos estádios sediadores de jogos como o Serra Dourada, o Onésio Brasileiro Alvarenga – vulgo OBA (do Tigre), o Hailé Pinheiro – vulgo Serrinha (do Esmeraldino), o Antônio Accioly (do Dragão) e o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira – casa tradicional do Galo Carijó. Esses clubes foram fundados no final da década de 30 até meados da década de 40, em decorrência da recém formada capital do estado de Goiás, Goiânia, em 1933.

No cerrado goiano, a concentração de produção jornalística está em Goiânia e região metropolitana, com pequenos jornais locais nas cidades do interior e filiais das grandes emissoras do eixo Rio-São Paulo, sendo as de maior importância as sediadas em Goiânia.

Tratando especificamente do que ocorre no jornalismo esportivo em Goiás, não vemos grande diferença de opinião entre os jornalistas dessa categoria. Três profissionais da área foram entrevistados e a afirmação de que o jornalismo esportivo em Goiás ainda é pequeno foi unânime. Thiago Rabelo, repórter da Rádio Sagres 730; Higor Augusto, repórter da editoria de esportes do Jornal O Popular; e Raphaela Ferro, professora do curso de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e coordenadora do Projeto Doutores da Bola, que também já trabalhou como repórter na editoria esportiva do Jornal O Popular.

A unanimidade para o jornalismo esportivo goiano não ser tão proeminente inicia-se na desvalorização do profissional de imprensa, o que é geral no jornalismo, a começar pela não exigência de diploma para o exercício profissional. Por ser uma das menores editorias em uma empresa de informação, a categoria esportiva passa a ter cada vez menos pessoal e vagas, como apontaram Thiago e Raphaela.

As redações enxutas, também, contribuíram para um certo amadorismo de conteúdo, já que é mais fácil publicar as chamadas hard news (notícias relevantes ao momento que acontecem, com pouco desenvolvimento do contexto), muito bem lembrado por Rabelo, como personalização dos jogadores, polêmicas, competição entre os veículos, algo apontado também por Raphaela. Ela também acredita que no amadorismo não existe a percepção jornalística, a busca pela apuração dos fatos, por muitos veículos não contratarem profissionais: “muitas pessoas executam o trabalho de jornalista esportivo sem ter uma formação em jornalismo, principalmente no rádio”

Um cabível exemplo de amadorismo ou falta de senso social jornalístico é o caso em que a TV Goiânia, afiliada da Band em Goiás, apresentou um quadro do programa Os Donos da Bola, no dia 21 de fevereiro de 2018, no qual o apresentador Beto Brasil fazia perguntas embaraçosas, muitas de duplo sentido sexual, para as candidatas a musas dos clubes de Goiás. Para a musa do Goiás foram algumas como: “Em um clássico contra o Vila, se o juiz põe pra fora, você mete a boca?”, “se o seu nutricionista mandar você chupar uma laranja porque faz muito bem para a saúde, você chuparia um saco por dia?” e “para uma musa não sofrer dores localizadas, é importante o médico colocar compressa?”. O teor machista do quadro foi muito criticado pelos espectadores e o programa saiu do ar na semana seguinte, com um pedido de desculpas da emissora, alegando que o tom foi excedido e as “perguntas foram feitas para que todos entendessem o que as mulheres sofrem”.

“muitas pessoas executam o trabalho de jornalista esportivo sem ter uma formação em jornalismo, principalmente no rádio”

Desse quadro do programa com musas, vemos uma grave pane que é geral no jornalismo: o preconceito de gênero. Algo pontuado pela professora Raphaela, que já foi repórter esportiva e sabe muito bem o que se passa com uma mulher nesse meio que sempre foi dominado por homens. “É mais comum o preconceito velado. Você está lá mas sente que sua presença não é razoável, que tem as pessoas te questionando, que elas não acreditam na sua capacidade de exercer aquele trabalho e exigem de você uma postura para ser aceita nesse meio, de muito mais responsabilidade, vestimenta, o que é um absurdo, e comportamento para trabalhar entre os colegas. É muito preconceituoso isso. Os ambientes são formados para que você não esteja lá”.

Mesmo com diferentes experiências no mundo profissional, esse desafio feminino no esporte e no jornalismo esportivo continuará, mas sempre com perseverança de avanço. As transmissões da Copa do Mundo Feminina em canais de televisão aberta são mais do que uma transmissão, são um avanço social no sentido de inclusão e aceitação das mulheres no meio esportivo, principalmente no futebol tão masculinizado. O crescimento de mulheres nos públicos dos estádios, incentivo e patrocínio financeiro às atletas é algo importante para as futuras gerações crescerem com a inclusão no esporte.

“É mais comum o preconceito velado. Você está lá mas sente que sua presença não é razoável […] É muito preconceituoso isso. Os ambientes são formados para que você não esteja lá”.

Mesmo que o jornalismo esportivo seja “igual em todos os lugares” e a prática desse jornalismo seja “como fazer em qualquer outro lugar”, como conta Higor, em Goiás ainda existe a necessidade de maior profissionalização na área, o que levaria a melhor qualidade do serviço apurado e postado pelos profissionais. O amadorismo também interfere na credibilidade local. A falta de dados estatísticos e históricos sobre o esporte local ainda é deficiente, até mesmo no futebol, mas já existe uma espécie de “jornalismo de dados esportivos” no estado sendo feito recentemente por páginas como Futebol de Goiaz e alguns jornalistas de dados como, por exemplo, Alexandre Ferrari.

Quando o esporte é tratado no jornalismo, o primeiro cuidado que se deve ter em mente é a questão da parcialidade. Quem trabalha na área sabe que sempre se policia por conta de suas próprias preferências no esporte, como escrever uma notícia sobre algo negativo do time do peito, afinal, a paixão é a área que a editoria esportiva tem em destaque sobre as outras.

A cumplicidade entre os colegas da profissão também contribui para uma melhor qualidade de material postado dentro do esportivo. Higor e Thiago afirmam que o bom relacionamento com outros jornalistas esportivos possibilita oportunidades e maior conteúdo para uma matéria. A rivalidade entre profissionais e veículos é uma cúmplice do amadorismo, apontou Raphaela.

Se o jornalismo esportivo em Goiás ainda é uma pedra a ser lapidada, podemos pensar se ele realmente apresenta aquilo que queremos ler e assistir. A interação dos leitores e audiência com postagens e programas esportivos é essencial para a constante melhoria do setor. As editorias esportivas poderiam ver que diminuição de pessoal não agrega para melhor qualidade de material e atração de público. Os dois lados trabalham juntos, afinal, o jornalismo depende não apenas dos anunciantes para sobreviver, mas também do leitor. O social é a base do jornalismo, não o financeiro.